Os altos valores pagos por prefeituras a cantores e bandas em festas populares, como São João e Carnaval, têm gerado debates intensos em todo o Brasil. No Nordeste, especialmente na Bahia, Pernambuco e Piauí, gestores municipais estão tomando a frente ao adotar estudos de viabilidade e estabelecer tetos para contratações com recursos públicos, visando equilibrar as contas das cidades e priorizar investimentos em áreas essenciais, como saúde, educação e infraestrutura.
Na Bahia, os prefeitos foram os pioneiros na discussão. Em fevereiro de 2026, durante reunião na sede da União dos Municípios da Bahia (UPB), em Salvador, foi alinhado um acordo que define o teto máximo de R$ 700 mil por apresentação para atrações musicais nos festejos juninos de 2026.

A proposta, apoiada pelo Ministério Público da Bahia (MP-BA), Tribunal de Contas dos Municípios (TCM) e Tribunal de Contas do Estado (TCE), inclui orientações para transparência nas contratações e foi reforçada por uma campanha da UPB chamada “São João sem Milhão”. Artistas que cobrarem acima desse valor podem ficar de fora das programações em municípios que aderirem ao pacto, especialmente aqueles que se apresentaram no ano anterior com cachês mais altos. A medida busca conter a inflação de valores que, em edições passadas, chegaram a ultrapassar R$ 1 milhão em algumas contratações.

No Piauí, o tema ganhou força em reuniões da Associação Piauiense de Municípios (APPM). Embora não haja ainda um teto oficial consolidado pelas prefeituras, tramita na Assembleia Legislativa um projeto de lei proposto pelo deputado Ziza Carvalho que estabelece limite de R$ 250 mil por atração individual e até R$ 500 mil no total de contratações artísticas por evento, usando recursos públicos.

A discussão reflete a preocupação com shows milionários em municípios pequenos, onde serviços básicos muitas vezes enfrentam deficiências. A APPM tem buscado critérios para justificar os gastos e evitar excessos, em meio a críticas de que os valores estão “impraticáveis” para as finanças locais, a no último encontro foi discutido o valor de R$ 500 como limite.

Aagoas também entra no movimento. Prefeitos e prefeitas de municípios alagoanos decidiram estabelecer um teto de R$ 500 mil para cachês pagos a bandas e artistas em festas promovidas pelas prefeituras. A decisão foi tomada nesta segunda-feira (16 de março de 2026), durante reunião na sede da Associação dos Municípios Alagoanos (AMA), em Maceió.

A medida busca conter o aumento dos valores cobrados por artistas nacionais, garantir a sustentabilidade dos eventos tradicionais, preservar a economia local e não comprometer projetos sociais mantidos pelos municípios. A iniciativa reflete a preocupação crescente com o impacto desses gastos no orçamento público.

Já em Pernambuco, a medida foi concretizada de forma mais recente e coletiva. Nesta terça-feira (17 de março de 2026), durante assembleia da Associação Municipalista de Pernambuco (Amupe), os prefeitos aprovaram por consenso um teto de R$ 350 mil para cachês artísticos em eventos promovidos pelos municípios, como Carnaval e São João.

A decisão veio após pesquisa realizada pela entidade, com participação de 81% dos municípios pernambucanos. Entre as 149 cidades que responderam, 96% defenderam a padronização dos valores. Os dados mostraram que os cachês mais citados variavam entre R$ 300 mil e R$ 400 mil, o que levou à escolha de R$ 350 mil como ponto de equilíbrio. O limite serve como orientação aos gestores, não sendo obrigatório, mas reflete um esforço coletivo para racionalizar os gastos.

O prefeito de Belo Jardim, Gilvandro Estrela, foi um dos mais enfáticos durante os debates: “Prefiro investir em melhorias para a cidade do que pagar altos cachês a artistas”, declarou, sintetizando o sentimento de muitos gestores que veem nos excessos uma distorção de prioridades orçamentárias.
Essas iniciativas regionais sinalizam uma tendência crescente no Nordeste: conter a escalada de cachês artísticos, que muitas vezes consomem fatias significativas dos orçamentos municipais destinados a festas populares. Enquanto alguns defendem que os eventos culturais geram retorno econômico via turismo e emprego temporário, outros argumentam que os recursos poderiam ser melhor alocados em demandas estruturais. O movimento pode inspirar outros estados e até pressionar o mercado artístico a rever negociações para manter a presença em festas tradicionais.
